O barulho da leitura libertadora

Paulo Custódio de Oliveira*

O Som ao Redor (2012) é escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho. Em 2013 chegou a ser indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro. O que foi uma surpresa, porque seu orçamento não é assustador como o de alguns de seus adversários no prêmio. Ele – inclusive – foi rodado em Setúbal, um bairro de classe média abastada do Recife, na rua onde diretor mora. O enredo revela que o lugar é controlado por Francisco (Waldemar José Solha), um senhor de engenho que é dono de quase todos os imóveis dali, vivendo cercado pelos filhos e netos.

As cenas iniciais do filme são uma espécie de “resumo da ópera”, porque misturam esse passado de coronelismo com a atualidade, que parece dar continuidade às distâncias entre comandantes e comandados da sociedade. Primeiro surgem fotos antigas secundadas por uma percussão que ecoa no meio das imagens, provocando uma conexão que vai sendo aceita como natural. Abruptamente, o som de patins corta a continuidade dessas figuras estáticas. Vê-se a imagem de uma menina deslizando pelo playground de um prédio de apartamentos. Os primeiros sons se misturam à fala longínqua das babás, das crianças, e dos trabalhadores na rua. Nem mesmo a entrada em cena do grupo de vigilantes particulares liderados por Clodoaldo (Irandhir Santos) para fazer a segurança das residências parece abalar a paz.

Mas isso revela que a classe média está preocupada. E começa-se a perceber pequenos dados dessa preocupação: muitas cenas de grades nas portas e janelas das residências (algumas em primeiro plano). Um ar claustrofóbico invade essa calmaria: são paredes decadentes, parapeitos altos, corredores estreitos, portas fechadas, porões abandonados, ruas escuras, uma piscina vazia.

Vai se desenhando paulatinamente uma ruptura entre os sons e as imagens. A serenidade provinciana não mais convence. Uma tensão vai se instalando por meio desses sons “deslocados”. Os diálogos se desenvolvem como se o diretor não quisesse que fossem interpretados, são factíveis, corriqueiros e até ininteligíveis. Ouvi-los é como prestar atenção a uma conversa de terceiros na esquina, ou como descer o elevador acompanhado de desconhecidos em silêncio. Dessa forma, o som fica “ao redor” da imagem. A desconexão obriga o espectador a sempre ver uma coisa e pensar outra. Como isso acontece o tempo todo, o cérebro vai se acomodando ao mecanismo.

O interessante é que essa desconexão acaba gerando uma metáfora: as poucas relações diretas entre sons com as imagens, reproduzem a realidade social, onde, apesar de conjugados, os espaços da classe média e do operariado são inconciliáveis. As coisas estão desconectadas. O inacreditável é que as pessoas estão percebendo a desconexão, mas não atentam para ela como coisa significativa. É nesse sentido que as coisas triviais adquirem um peso terrível e o banal torna-se interessante. A distração de todos provoca a sensação de que algo muito perigoso e estranho está para acontecer, mas todos estão indiferentes à magnitude do que os circunda.

A tensão torna-se uma constante do pensamento. Cada elemento da cena que aparece na tela possui um significado, mas nenhum deles basta. Parece que o filme trata do coronelismo, parece que ele denuncia a condição precária dos explorados, parece ser luta de classes. Mas nada disso é tratado objetivamente. É assim que o filme constitui-se uma forma de “preparar” o espectador para a habilidade crucial para o exercício da cidadania, que é a capacidade de extrair sentido das poucas informações oferecidas pela realidade. Aquele que alcançar esse patamar de questionamento pode certamente concluir que sua leitura está mais sofisticada.

Seguindo a mecânica da realidade, o filme não explica nada de forma objetiva. Cabe ao espectador desvendar a ironia com os estranhamentos criados nos clichês. Depois de Som ao redor será possível desconfiar sozinho daqueles que dizem que para superarmos as ameaças que nos rondam, precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Será? As desconexões do filme ajudam que assiste a construir suas próprias suspeitas sobre o modo de enfrentamento. Será mesmo preciso mais exércitos e mais serviços secretos? Pode-se dizer que, ao abalar as estruturas da explicação clara, o filme permitiu que se construísse uma opção na mente daquele que atinge esse padrão de leitura. Esse é o significado de experiência libertadora que pode atingir tanto aquele que pertence às classes menos favorecidas criadas pelo sistema capitalista quanto ao membro da abastada minoria que se locupleta de seus benefícios. O filme Som ao Redor salva todos da indiferença pela oferta da possibilidade, permitindo, sem imposições prévias, a construção de um novo sentido para a realidade.

Fonte das Imagens: Som ao Redor (2012)


prof.paulocustodio
Paulo Custódio de Oliveira
Doutor em Teoria literária, Coordenador do Grupo de Estudos InterArtes, Professor de Literatura brasileira na FACALE, Vice-presidente do Cineclube UFGD. Pesquisa a relação da Literatura com as Artes.


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