A imagem que narra: o hibridismo revelado no Dossiê Rê Bordosa

 Mirella Rodrigues Flores*

 

Rê 5

O Dossiê Rê Bordosa, lançado em 2008, foi dirigido e roteirizado por Cesar Cabral em parceria com Leandro Maciel. A animação é construída no formato de um documentário que busca investigar as causas que levaram o cartunista Arnaldo Angeli Filho a assassinar sua principal criação, Rê Bordosa. O curta recebeu o prêmio de Melhor Roteiro e Trilha Sonora de curta no 12º Cine PE, Melhor Curta-Metragem (Júri Oficial, Popular e Crítica) no 1º Festival de Paulínia, Melhor Curta-Metragem e Animação Brasileira no 16º Festival Anima Mundi, Prêmio do Júri Popular no 10º Festival Internacional de Curtas de BH e na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes e Melhor Roteiro e Montagem no 36º Festival de Gramado.

Um breve vídeo de Rê Bordosa falando sobre ela mesma é o que dá o pontapé inicial ao curta. Na sequência, são exibidas várias matérias de jornais e revistas que divulgaram a morte da personagem. É dado destaque para o jornal Folha de São Paulo, local onde Angeli publicava suas tirinhas e que serviu de meio para a morte de Rê Bordosa. A prova do crime – tirinha que mostra o assassinato da personagem – é projetada e lida de forma dramática. Aliado a isso, uma mistura de sons revoltos constrói o clima de suspense e investigação.

Começa, então, a busca por respostas. Para que o público conheça um pouco mais sobre a vítima e seu algoz, a animação conta com várias declarações de pessoas próximas a eles. Laerte Coutinho, Toninho Mendes, Paula Madureira e Marcia Aguiar relatam seus depoimentos na tentativa de entender o que motivou o assassinato da criação pelas mãos do criador. O próprio cartunista também participa do documentário, descrevendo como conheceu Rê Bordosa e qual era sua relação com a personagem. Porém, ele adota uma postura escorregadia e, quando questionado, opta por respostas simples e evasivas. É notável o esforço que faz mais para justificar o possível crime do que para negar os acontecimentos.

Contudo, as investigações não se limitam à esfera do criador: o Dossiê mergulha no mundo de Rê Bordosa e traz de lá outros personagens. Dessa forma, é oferecida a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre Rê Bordosa através das lentes de quem vivia no mesmo universo que o seu. Bibelô e Bob Cuspe foram os escolhidos para apresentar a tresloucada personagem de um modo diferente, ou pelo menos, mais imparcial. Enquanto o primeiro relembra seus encontros com Rê Bordosa, o último revela importantes fatos sobre a fatídica noite e faz denúncias sobre a dolorosa e cruel tortura à qual ela foi submetida.

No decorrer do Dossiê, o sentimento de inquietação e curiosidade só aumenta. O que teria levado Angeli a matar Rê Bordosa? A relação entre criador e criação é desenhada com habilidade e as várias perguntas lançadas permitem que o espectador crie hipóteses sobre as causas do crime. Mas não são apenas esses questionamentos e o mistério que os rodeia que fazem o curta se tornar interessante. Além da construção da trama, o modo como esta é contada faz dela uma experiência cinematográfica envolvente.

O curta permite que o espectador se relacione com os diferentes tipos de imagem e o modo como elas contam uma história. Logo nos primeiros minutos da animação são trazidas algumas tirinhas de Rê Bordosa. O episódio de sua morte é contado através de uma leitura dramatizada desses quadrinhos, que são projetados no filme respeitando a sequência que a tirinha impõe. Assim, o espectador se vê (e/ou se sente) na posição de leitor. Isso pois, quando acompanha a leitura das tirinhas que é feita no curta, ele também lê. Nesse caso, é a ação da leitura que atribui movimento a personagem.  

Porém, a imagem dos personagens nos quadrinhos é substituída pelos próprios personagens, que saem da estrutura delimitada pelas tirinhas. Rê Bordosa e Angeli, que antes se mostravam enquanto desenhos num papel, tomam formas e contornos. A técnica de stop motion combinada com a animação “em massinha” (conhecida também como claymation) proporcionam uma nova percepção desses personagens. Agora, eles (e todos os outros) se destacam dentro do espaço e se movimentam por si mesmos, sem a ajuda do olho leitor. Tais personagens se constituem como reais, ainda que no âmbito da ficção, por conta da textura sensível que adquirem.

O que se percebe no Dossiê Rê Bordosa são duas dicotomias. A primeira se estabelece na relação entre a imagem estática das tirinhas e a imagem em movimento da animação. A segunda é, justamente, o contato entre a HQ e o cinema. Mesmo que um olhar mais atento consiga perceber as diferenças de cada estrutura de criação, o Dossiê Rê Bordosa consegue reunir as duas e se instaurar como um novo método de contar histórias. Os diferentes tipos de imagem se configuram numa narrativa híbrida, que rompe a fronteira entre as artes.


Fonte das imagens: Coala filmes/divulgação

Referência: DOSSIÊ RÊ BORDOSA. Direção: César Cabral; Roteiro: Cesar Cabral, Carla Gallo, Leandro Maciel; Fotografia: Marcelo Trotta; Música: Cláudio Augusto Ferreira; Elenco: Paulo César Pereio, Grace Gianoukas, Laert Sarrumor. São Paulo: Coala Filmes, 2008. Curta-metragem/Animação, son., color., 15 min.


mi

Mirella Rodrigues Flores (Currículo Lattes)
Acadêmica do curso de Letras
Iniciação científica: Letras FACALE/UFGD (2015 – 2016)
Objeto de pesquisa: Animação Dossiê Rê Bordosa de César Cabral, evidenciando a fronteira entre o HQ e o  Cinema. Título do trabalho: Hibridismo artístico em Dossiê Rê Bordosa. 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s