Palavra (En)cantada: Poesia e Música

 

Prof. Dra. Cláudia Sabbag Ozawa Galindo*

 

palavra_encantada_cartazO documentário Palavra (Em)cantada é uma produção de Helena Solberg e Marcio Debellian, que trata da história da canção brasileira, a partir de um viés poético-musical.

Vencedor do Festival do Rio de 2008, por melhor direção de longa metragem documentário, e considerado “O mais sedutor espetáculo do gênero desde Vinicius”, pelo jornal O Globo, além de uma “Festa para os olhos e ouvidos”, segundo O Estado de S. Paulo, o filme transita dos poetas provençais ao rap, do carnaval de rua aos poetas do morro, da bossa nova ao tropicalismo, traçando um panorama da música brasileira até os dias de hoje.

Percorrendo uma viagem na história do cancioneiro brasileiro com um olhar especial para a relação entre poesia e música, o documentário realiza um trabalho primoroso que costura “depoimentos emocionantes, performances musicais e surpreendente pesquisa de imagens”.

Os contatos poesia & música no Brasil não representaram casos isolados. Em uma cultura que tem na oralidade o traço característico de sua própria identidade, a tentativa de estender a fala no canto esteve sempre presente. As contribuições rítmicas indígenas, melódicas portuguesas e os batuques africanos forneceram uma base de oralidade constante.

Além disso, durante um longo período de colonização, as influências portuguesas dominaram as estruturas musicais do país dominado, no que se desenvolveram evoluções das antigas formas poético-musicais do país de origem, as cantigas de amor. Foi o caso da serenata, a qual no Brasil ganharia o nome de canção de seresta e que, aos moldes dos antigos trovadores, era cantada e acompanhada a solo, com intenções amorosas do intérprete.

Com o século XVII, as tendências africanas incorporaram-se à sonoridade brasileira, agregando-lhe o sentido de diálogo, comum nos cantos responsoriais e religiosos dos negros, embalados pelos batuques. Deu-se uma espécie de cancionalização dos batuques africanos, em meados do século XVIII, com a participação de mestiços e brancos de classes inferiores da sociedade nas rodas musicais.

Mas as declarações lírico-amorosas ganharam força persuasiva, mesmo, nas vozes dos seresteiros e modinheiros do século XIX, que versejavam para as mulheres “as imprudências e liberdades do amor”. Música e poesia andaram bastante juntas nos salões do Império, que reuniam artistas e público. Nesse contexto, muitos poetas românticos, como Castro Alves, Gonçalves Dias, Fagundes Varela e Casimiro de Abreu, destinaram seus versos à divulgação oral, em forma de serenatas, um casamento da linguagem rebuscada dos poetas nas letras e da sonoridade mestiça dos choros das camadas médias da sociedade.

Esse novo gênero, na verdade, deitava raízes ainda nos antigos trovadores e menestréis da Idade Média, que se especializaram em apresentar suas cantigas amorosas nos palácios e nas ruas.

Durante os anos 1920, a música popular ganharia efetivamente um novo espaço e um público bem maior, com o que seria o teatro de revista, no qual eram encenados melodramas de temas cotidianos, embalados por canções feitas especialmente para estes espetáculos.

Mas foi com a década de 1930 que a canção se consolidou como a manifestação mais representativa da sonoridade brasileira e o rádio passou a ser o principal veículo de divulgação da música popular. Melodistas e letristas estavam voltados para a geração de uma música popular que fosse capaz de elevar os assuntos das conversas cotidianas à categoria de uma manifestação estética. Dessa forma é que se firmou o samba dos anos 1930, na oscilação de estruturas melódicas que vão desde as produções do samba-samba (que trata de si mesmo  como tema de elaboração estética), ao samba carnavalesco (em que o compositor exalta seu comportamento eufórico em harmonia com as coisas do mundo) até o samba-canção (carregado de sentimentos disfóricos, de ausência, de falta).

Já o samba dos anos 1940 e 1950 foi marcado por uma passionalização, influenciada pelo tango e pelo bolero hispano-americanos. O rádio, depois desse período, ia perdendo seu espaço para a televisão, e o momento era propício para o desenvolvimento de um novo gênero musical. Essa oportunidade seria preenchida pelo movimento Bossa Nova, que se preocupava em harmonizar as linhas melodias do samba e do jazz. A interpretação introduzida por esses novos compositores era direta, discreta, quase falada, valorizando a coloquialidade do oral, emprestando-lhe, contudo, elaboração estética.

Mais tarde, um grupo de jovens compositores poetas iria aprofundar as mudanças dentro da música popular. Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Geraldo Vandré etc. lutaram contra as dificuldades de aceitação das gravadoras e dos cantores diante de um produto tão diferente da paraliteratura. Defenderam a importância e o reconhecimento do compositor e passaram eles mesmos a gravar suas músicas. Criaram a figura do cantor/compositor, o indivíduo que interpreta suas próprias composições. E dotaram as letras das músicas de elementos conhecidamente literários.

Os recursos utilizados por estes músicos-poetas demonstravam a possibilidade de se construir uma letra de música dotada dos atributos necessários para que a considerasse um belo poema.

Entretanto, somente há pouco tempo despertou-se em nós a riqueza de que poderiam dispor estudos neste campo da oralidade literária. Assim é que alguns estudos culturalistas, por exemplo, passaram a incorporar textos advindos das canções ao campo da análise. Nesse sentido é que se desenvolveram vários estudos acadêmicos sobre os denominados músicos-poetas dos dias modernos, os artistas da palavra, que se valeram das técnicas de circulação oral da poesia, em versos da música popular.

Poesia & música, portanto, surgiram, em gênese, como unidade inalienável e, apesar das constantes transformações pelas quais passaram as sociedades, algumas antigas alianças resistiram, como natural encontro semiótico de seus contornos primitivos. Indispensável se apresenta, pois, um debruçar-se mais atento diante do que, aparentemente, constitui campos rigidamente definidos. Nessa estreita e maleável linha tênue poético-musical, mister se faz auscultar a poesia e declinar olhos para a música.


 

claudia1Profa. Dra. Cláudia Sabbag Osawa Galindo
Currículo Lattes


Pós-doutora em Letras- Estudos Literários com pesquisa na área de Estudos Culturais e Literatura, pela Universidade Estadual de Londrina. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura, atuando principalmente nos seguintes temas: sociedade, literatura, poesia, identidade feminina, poesia & música. Doutorado em Programa de Pós-graduação em Letras- concentração em Estudos Literários, pela Universidade Estadual de Londrina (2009), mestrado em Letras- Literatura, pela Universidade Estadual de Londrina (2001), graduação em Jornalismo pela Univesidade Estadual de Londrina (1999) e graduação em Letras pela Faculdade de Presidente Epitácio (2007).

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