Identidade e relacionamentos: a relação com o outro que me redefine

Augusto Isaac*

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O Homem Duplicado (2013) é uma produção canadense-espanhola de 2014, do diretor Denis Villeneuve, baseado no livro homônimo de José Saramago. Tem características de suspense e duração de aproximadamente uma hora e trinta minutos, apresentando Jake Gyllenhaal no papel principal. Apesar de seu enredo incomum e inquietante, tem tido uma boa recepção crítica e ganhou vários prêmios no Canadá principalmente nas categorias de melhor edição e melhor ator principal.

O filme nos mostra a vida de Adam Bell, um professor de História de personalidade passiva que leva uma vida monótona. Tudo muda quando, por acaso, descobre um homem que é fisicamente idêntico a si e então começa uma investigação em busca de respostas para essa situação surreal. Contrai uma angústia que afetará a sua identidade.

Conhecemos então o duplo de Adam, chamado Anthony, e sua esposa grávida, Helen. A partir do contato entre Adam e Anthony nascerá uma aproximação e um conflito. Por terem personalidades completamente opostas a situação se torna complexa. O jogo vai ficando cada vez mais perigoso e intrincado à medida que um se sente fortemente atraído pela mulher do outro.

Em meio a referências a clubes secretos, aranhas e a citações históricas de formas de controle social, somos levados a pensar em como problemas mal resolvidos tem uma incômoda tendência a reaparecer. Por ter um enredo intrincado, é um filme para ser visto, revisto e discutido. É uma obra aberta a interpretações, uma característica compartilhada com algumas das grandes obras de arte moderna, e talvez seja essa sua grande contribuição à reflexão estética: ele é impossível de ser sintetizado em uma única visão ou sentido.

Em um tempo em que os estúdios responsáveis pelos “blockbusters” preocupam-se primariamente em não falhar, buscando detectar a expectativa do público com base em preferências anteriores e entregar a obra supostamente esperada, O Homem Duplicado surpreende positivamente. Inevitavelmente deixa o espectador inquieto, mas essa sensação não impede a fruição do incomum e do misterioso dessa história. Ao contrário, nos deixa interessados e com uma espécie de ressaca ao final da sessão, intrigados com a experiência estética da qual participamos.

Participação e não apenas observação, pois somos forçados a pensar e reconstruir sentidos conforme as nossas expectativas vão sendo paulatinamente desafiadas. À primeira vista o enredo pode parecer demasiadamente econômico, causando estranhamento, mas isso decorre de uma das mecânicas não-convencionais que o filme apresenta, o fato das complicações da trama serem oriundas mais da psique e dos conflitos internos das personagens do que do desenrolar dos eventos.

Desde o início, Jake Gyllenhaal mostra desenvoltura no revezamento de personagens e Dennis Villeneuve na condução do enredo, mantendo a tensão ao longo de toda a narrativa. Ainda, problematiza o modo binário de pensar o mundo e as pessoas, e estimula a reflexão sobre questões atuais como a despersonalização causada pela sociedade de consumo, a importância da imagem que o outro tem de mim, relacionamentos que não atendem aos anseios dos envolvidos, e qual o impacto dessas questões em nossa identidade, que pós-modernamente sabemos não ser padronizada, una e coesa.

Por fim, ao desafiar as convenções do gênero cinematográfico, que leva a audiência à expectativa de uma resolução redutora e aconchegante, termina engendrando um espanto irredutível que, por recusar a simplificação, acrescenta grande qualidade ao raciocínio cinematográfico dessa obra.


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Augusto Isaac (Currículo Lattes)
Acadêmico de graduação em Letras, pela Faculdade de Comunicação, Artes e Letras (FACALE/UFGD). Membro do Grupo de Estudo “A ficção possível: leituras da narrativa portuguesa contemporânea”, coordenado pelo Prof. Dr. Gregório Dantas (PPG – Mestrado emLetras/UFGD). É também formado em Administração, pela Universidade do Oeste Paulista (Unoeste).

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