O simulacro da comunidade sensível

Paulo Custódio de Oliveira*

Fonte - Blog-Fetiche-de-CineFilo
Fonte da Imagem: Blog Fetiche de CineFilo

 

O texto de Susan Buck-Morss se chama “A tela de cinema como prótese de percepção”. Imaginei nele algumas respostas para perguntas que me incomodam: Estaria o cinema “sentindo por nós”? O cinema “aumenta nossa percepção das coisas”? O título sugestivo não resolve tudo e as primeiras páginas aumentam o obscuro que nele persiste. Trafega-se pelo inaudito de Husserl, quando este lutava com o problema de saber que a maior objetividade possível era a subjetividade. De que forma poderia ele anunciar um modelo de percepção se as percepções são individuais e os modelos são, obviamente, universais? O que dizer sobre o que não pode ser reduzido nem tabelado? Está à vista de todos o quanto suas pesquisas nos influenciam até hoje.

Haja vista sua projeção na questão colocada pela autora: como colocar o cinema no centro de uma especulação que nasce bem antes dele e que pode – com certeza tragá-lo para a lógica de sua organização? Husserl é contemporâneo do Cinema. Nesse caso, não poderia (ou melhor, nem teria como) perceber os efeitos em um modo de ser da percepção de uma forma artística ainda incipiente.

O questionamento husserliano, porém, está inscrito no que essa forma artística viria a se tornar. Se há uma angústia por reconhecer que o individual não poderia ser universal, se há uma limitação equacional a ser ultrapassada, ela pode ser entrevista pelo que acontece em uma sala de cinema. No escuro de uma sala de exibição há um tipo de comunhão rara.

Os sujeitos estão entregues a uma observação que lhes traga o mais recôndito pensamento. E é uma sensação impagável, um bem-estar imenso de pertencer a uma coletividade. Observe-se o prazer de se comentar o caminho de uma série da Netflix. Discorrer sobre essa história te faz pertencer a uma comunidade. Uma sensação de pertencimento é algo muito precioso para minha humanidade. Minha angústia se sente acariciada e meus perigos diminuem, porque tenho companheiros que me dizem que sentiram o mesmo que eu.

Mas não é só o fato de pertencer a uma coletividade que se vê abrigado por essa nova forma de expressão estética (não sei bem se assim poderia ser dito depois da leitura desse texto). É também uma rearticulação estrutural na percepção. É isso que me interessa mais que aquilo. Se um dia o questionamento sobre a origem da percepção se baseava na oposição entre uma realidade inatingível e um pensamento abstrato constituído de imagens que jamais se materializarão, hoje temos o cinema.

O que isso quer dizer? Que o conjunto de imagens que “substitui o pensamento” pelo ato de manifestar-se a uma consciência não pode ser reportado a nenhuma outra realidade que não a da própria existência de si enquanto imagem. Pode parecer labiríntico, mas é muito simples. Como nos diz Buck-Morss, ir ao cinema é um “ato de puro ver (p.8)”

Que novidade poderia haver nisso? Os atos de ver não são sempre puros? Infelizmente não. A imagem visível está sempre substituindo o objeto real que ela significa. Essa mistura é o cerne das mais encarniçadas batalhas intelectuais de todos os tempos. Realidade e imagem estão sempre aquém de tudo que lhes significa. Nesta corrente que se arrasta ao longo de séculos de especulações filosóficas que o cinema se insere. Não para acrescentar mais um elo, mas para substituir o modo de relação. O que pode ser saudado como vitória de uma percepção pura, não a aumenta, na verdade.

O Cinema transforma a natureza da percepção. A autora faz um curtíssimo histórico de como os primeiros espectadores não podiam estar preparados para o que lhes vinha aos olhos. Muitos assustaram-se com a chegada do trem, o primeiro filme dos Irmãos Lumière, exibido em 1895. O plano americano (modo de filmar que toma a imagem do ator dos joelhos para cima) causou incômodo e muitos solicitaram as outras partes do corpo que não eram alcançadas pela objetiva da câmera.

A educação do olhar demorou chegar. Os olhos jamais estiveram preparados para o simulacro. A mente sonha e espera uma realidade ao passo que ele se constitui pela entrega do corpo à alma da semelhança. Um simulacro é uma inexistência pura. “O código não remete mais à qualquer ‘realidade’ subjetiva ou objetiva, mas a sua própria lógica” (p.17)

Nessa debilidade está a razão de sua força. A qualquer outra forma de estética faltaria a leveza necessária para frequentar tantas mentes. A comunidade sensível pode se formar porque nada lhe impede de grassar indômita pelo pensamento de todos. Nada lhe limita os devires de que vem prenhe. Uma comunidade sensível se forma por conta dessa alteração substancial no modo de perceber o falso e incutir-lhe o sentido que o torna possível. Em nenhuma outra formação, excetuando-se – penso eu – a ascese religiosa – se pode ver uma comunhão tão intensa.

Acrescente-se ao comentário o fato de que a decisão por uma religião parte da crença em uma narrativa. Crença que poderia ser reportada á ficção: o pacto narrativo presume que o leitor aceite as premissas ficcionais que sustentam o enredo. No entanto, esse leitor pode retornar ao seu estado natural assim que o seu discernimento crítico permitiria. Não é assim com o cinema. Citado por Walter Benjamin, Duhamel teria dito: “Já não posso meditar no que vejo. As imagens em movimento substituem meus próprios pensamentos (DUHAMEL apud BENJAMIN, p. 31) As imagens cinematográficas dificultam o retorno crítico que a letra permite. Se o homem desejou clonar a interação do sujeito com a realidade, criou o impossível pois a humanidade é que se tornou objeto da percepção.

Há o perigo de tal viragem de empoderamento da imagem não pode ser dita crítica, senão conformidade. A conformidade é a universalidade que Husserl um dia debateu-se para encontrar no seu gabinete na Universidade de Friburgo. E isso pode não ser muito bom. A uniformidade pode coincidir com o achatamento crítico e a imagem escorrer para o vaso da tirania. (Mas o que são os julgamentos depois de Nietzche?)

A imagem cinematográfica assemelha-se ao indivíduo que toma um energético para manter-se no sofá. É um sujeito energizado, mas anestesiado ao mesmo tempo. Pode e sente a universalidade pujante de um conformismo intersubjetivo mas não tem como interagir com os sentimentos que se encontram represados pelo próprio ato de perceber.

O cinema é um modo de apreensão da realidade que forma um novo tipo de sujeito. Um para o qual ainda não estamos preparados. Carregado de afetos que não lhe pertencem, todavia incapaz de desvencilhar-se dele para reencontrar uma pretensa originalidade à qual nunca pertenceu. Uma ambivalência que não pode mais reportar-se a uma nacionalidade, nem a uma humanidade que ficou enformada pelo modelo de percepção moderna-iluminista. Não sei o que é, mas não é mais o que foi. Não sei como será, mas não saiu como planejado.

Referências:

BENJAMIN, W. A obra de arte nos tempos de suas técnicas de reprodução. Traduzido por José Lino Grunewald. São Paulo: Abril, 1983. pp. 09-35 (col. Os Pensadores)

BUCK-MORSS, S. A tela de cinema como prótese da percepção. Traduzido por Ana Luisa Andrade. Florianópolis: Cultura e barbárie, 2009 (PARRHESIA, col. Ensaios)



Paulo Custódio de Oliveira

Pós-doutor pela Universidade Federal Fluminense (UFF), doutor em Letras (Teoria da Literatura) pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – Campus de São José do Rio Preto (SP). Professor do programa de pós-graduação Mestrado em Letras da Faculdade de Comunicação, Artes e Letras (FACALE), da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Líder do grupo de pesquisa Estudos em Arte e Literatura Contemporânea. Coordenador do Grupo de Estudo InterArtes e do LIAMI – Laboratório InterArtes de Mídia e Imagem. Pesquisa a relação da Literatura com outros sistemas artísticos e midiáticos.

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Grupo de Estudo InterArtes

Faculdade de Comunicação, Artes e Letras (FACALE)
Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD)

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